Acórdão · Superior Tribunal de Justiça
RMS 78.294
- Julgado em 15/06/2026 · publicado em 19/06/2026
- Órgão julgador: QUINTA TURMA
- Relator: RIBEIRO DANTAS
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Ementa
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ORDINÁRIO EM
MANDADO DE SEGURANÇA. TRANCAMENTO DE AÇÃO PENAL. CRIME AMBIENTAL.
TRANSPORTE DE PRODUTO PERIGOSO. ART. 56 DA LEI N. 9.605/1998. NORMA
PENAL EM BRANCO. ALEGAÇÃO DE INÉPCIA DA DENÚNCIA. NÃO OCORRÊNCIA.
AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. NÃO CONFIGURAÇÃO. NECESSIDADE DE DILAÇÃO
PROBATÓRIA. INADEQUAÇÃO DA VIA MANDAMENTAL. RECURSO IMPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
1. Agravo regimental interposto contra decisão monocrática que negou
provimento a recurso ordinário em mandado de segurança, no qual se
pleiteava o trancamento de ação penal instaurada contra pessoa
jurídica pela suposta prática do crime previsto no art. 56 da Lei n.
9.605/1998.
2. A controvérsia envolve a alegação de inépcia da denúncia, por se
tratar de norma penal em branco sem indicação suficiente da norma
complementar, e a suposta ausência de justa causa, diante da
inexistência de prova técnica da materialidade delitiva.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
3. Há duas questões em discussão: (i) saber se a denúncia é inepta
por não indicar de forma adequada os elementos normativos
complementares da norma penal em branco; (ii) saber se a ausência de
exame de corpo de delito compromete, de plano, a existência de
justa causa para a persecução penal.
III. RAZÕES DE DECIDIR
4. A denúncia é apta quando descreve o fato criminoso com suas
circunstâncias essenciais, de modo a permitir a compreensão da
imputação e o exercício da ampla defesa, não sendo exigida, nessa
fase, descrição exauriente ou indicação minuciosa de todos os
elementos normativos, sobretudo quando extraíveis do contexto da
peça acusatória.
5. Em se tratando de norma penal em branco, exige-se a indicação de
elementos suficientes que tornem cognoscível o conteúdo normativo
violado, o que se verifica quando a denúncia contextualiza a conduta
e faz referência aos elementos regulamentares pertinentes.
6. A justa causa para a ação penal consubstancia-se na existência de
suporte probatório mínimo, composto por indícios de autoria e prova
da materialidade, não se exigindo, para o recebimento da denúncia,
prova cabal ou juízo definitivo de certeza.
7. A ausência de exame de corpo de delito, considerada isoladamente,
não implica, de plano, inexistência de justa causa, sendo
necessária análise do conjunto probatório, providência incompatível
com a via do mandado de segurança.
8. O trancamento da ação penal constitui medida excepcional,
admitida apenas quando evidenciada, de forma inequívoca e sem
necessidade de dilação probatória, a atipicidade da conduta, a
incidência de causa extintiva da punibilidade ou a manifesta
ausência de indícios de autoria e prova da materialidade, hipóteses
não configuradas no caso concreto.
IV. DISPOSITIVO E TESE
9. Resultado do Julgamento: Agravo regimental improvido.
Tese de julgamento:
1. A denúncia fundada em norma penal em branco é apta quando,
considerada em sua integralidade, fornece elementos mínimos que
tornem cognoscível o conteúdo normativo violado e cumpre o art. 41
do CPP. 2. A ausência de exame de corpo de delito não conduz, por si
só, ao reconhecimento da inexistência de justa causa, sendo
inviável o trancamento da ação penal pela via mandamental quando a
controvérsia demanda análise aprofundada do conjunto probatório.
Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 41; CPP, art. 158; Lei n.
9.605/1998, art. 56
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