Acórdão · Superior Tribunal de Justiça
AREsp 2.331.664
- Julgado em 10/03/2026 · publicado em 19/03/2026
- Órgão julgador: SEGUNDA TURMA
- Relator: MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA
Conferir no STJ
Número, data e link oficial para citar com segurança.
Ementa
DIREITO TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA. AFASTAMENTO DA SÚMULA 182/STJ. NEGATIVA DE
PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. INOCORRÊNCIA. EXECUÇÃO FISCAL.
REDIRECIONAMENTO. GRUPO ECONÔMICO FRAUDULENTO E SUCESSÃO EMPRESARIAL
FICTÍCIA. ARTS. 124, I, E 135, III, DO CTN E ART. 50 DO CC/2002.
JULGAMENTO EXTRA PETITA. INEXISTÊNCIA. INSTITUTO QUE SE VINCULA AO
PEDIDO E NÃO À CAUSA DE PEDIR. CERCEAMENTO DE DEFESA. VIOLAÇÃO AO
CONTRADITÓRIO. PROVA EMPRESTADA E DOCUMENTOS DOS AUTOS. PRINCÍPIO DO
LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. TERCEIRO NÃO SÓCIO E ADMINISTRADOR.
TEMA 981/STJ. COMPROVAÇÃO DE ATOS FRAUDULENTOS, CONFUSÃO PATRIMONIAL
E ESVAZIAMENTO DA EMPRESA DEVEDORA. REVISÃO DO ACERVO
FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 07/STJ. AGRAVO EM RECURSO
ESPECIAL CONHECIDO. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO EM PARTE E, NESSA
EXTENSÃO, NÃO PROVIDO.
1. Afasta-se a alegação de ofensa aos arts. 489 e 1.022 do CPC, pois
o Tribunal de origem decidiu a controvérsia de forma fundamentada e
completa, enfrentando as teses relevantes para o deslinde da causa,
não se confundindo decisão contrária aos interesses da parte com
negativa de prestação jurisdicional.
2. Inexiste julgamento extra petita. O princípio da congruência
refere-se ao pedido formulado e não rigidamente à causa de pedir ou
aos fundamentos jurídicos, sendo lícito ao magistrado, com base nos
fatos narrados e provados nos autos (da mihi factum, dabo tibi ius),
qualificar juridicamente a conduta como fraude e grupo econômico
para acolher o pedido de redirecionamento.
3. Não há violação ao contraditório ou a ampla defesa pela menção a
elementos de outros processos, notadamente quando os mesmos
documentos foram encartados aos autos, permitindo o acesso prévio e
manifestação da parte.
4. O depoimento do liquidante, apontado como falso pelo recorrente,
foi relativizado pelo Tribunal a quo e pela própria Fazenda como
elemento de convicção do julgador para o reconhecimento da fraude,
cuja conclusão está estampada em múltiplos indícios que, somados a
outras provas robustas (fraudes trabalhistas, confusão patrimonial,
venda de ativos), formaram a convicção do órgão julgador. O
incidente de falsidade foi superado, em decisão preclusa, e o debate
jurídico da questão não foi prequestionado nas instâncias de origem
(Súmulas 283 do STF e 211 do STJ). Além disso, rever a suficiência
e o peso atribuído às provas esbarraria na Súmula 07/STJ.
5. O mérito relacionado ao critério de responsabilização utilizado
nos presentes autos não se confunde com o mero inadimplemento
(Súmula 430/STJ) ou a simples dissolução irregular (Súmula 435/STJ).
O distinguishing pretendido pela recorrente fora refutado no
julgamento do Agravo Interno contra a decisão de negativa de
seguimento do recurso especial. "Não é possível a esta Corte
Superior analisar questões às quais cujo seguimento tenha sido
negado na origem, com base na aplicação de entendimento firmado em
julgamento de recursos repetitivos, nos termos do art. 1.030, I, b,
do CPC/2015, sendo cabível, para tanto, a interposição de agravo
interno ao Tribunal a quo, de acordo com o art. 1.030, § 2º, do
CPC/2015, ao qual incumbe, com exclusividade e em caráter
definitivo, proferir o juízo de adequação" (AgInt no AREsp n.
2.692.470/AM, relator Ministro Afrânio Vilela, Segunda Turma,
julgado em 19/3/2025, DJEN de 24/3/2025.).
6. De todo modo, o Tribunal de origem delineou, com base no acervo
fático-probatório amealhado aos autos, a existência de um esquema
fraudulento complexo ("Grupo Fama"), no qual o recorrente, embora
formalmente desligado da executada principal, continuou a exercer
gerência e atos de gestão no grupo econômico, participando do
esvaziamento patrimonial, inclusive mediante lides trabalhistas
simuladas e comportamento contraditório (venire contra factum
proprium).
7. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, consolidada no
Tema 981, admite o redirecionamento da execução fiscal contra o
terceiro não sócio que detenha poderes de administração e pratique
atos com infração à lei, como é o caso da gestão fraudulenta e
blindagem patrimonial.
8. A revisão das conclusões da Corte de origem acerca da efetiva
participação do recorrente na fraude, sua condição de sócio de fato,
a existência de grupo econômico e a prática de atos de gestão com
infração à lei demandaria, inevitavelmente, o reexame de fatos e
provas, providência vedada em sede de Recurso Especial pela Súmula
07/STJ.
9. Agravo em Recurso Especial conhecido. Recurso Especial conhecido
em parte e, nessa extensão, não provido.
Ementa e metadados do acervo TribuJus. Confira sempre no link oficial do STJ antes de citar.